
Just press Start
Recentemente, o site Gamasutra entrevistou Hiroshi Aoki, produtor de Space Invaders Extreme para a Nintendo DS e um veterano da Taito – um estúdio que influenciou profundamente o nosso meio e que, hoje em dia, é uma divisão de jogos de arcada da Square-Enix.
Durante a entrevista Aoki faz o seguinte comentário: «nos meus jogos, quando carrego no botão Start, quero entrar imediatamente no jogo; não quero cutscenes inúteis. Preocupo-me com coisas como tempos de resposta ao carregar em botões, coisas que eram tratadas muito mais seriamente nos meus projectos de arcada».
Destaque para botões e reflexos em vez de sequências cinematográficas. Um ponto de vista que não deve convencer muitos de vocês, certo?
Mas talvez devesse.
Porque usamos o termo “videojogo”? No primeiro contacto com o meio apenas conseguimos descrever o seu elemento visual, o que pode ter sido responsável pelo rumo da indústria – como o apelo ao fotorealismo. Entretanto, cada nova geração de consolas e de jogadores vai olhando com desdém para o passado, como quem se sente embaraçado ao cruzar-se com uma ex-namorada na rua.
Parte do problema com o termo é que o usamos para descrever coisas tão distintas como Burnout Paradise, Dragon Age: Origins ou Grand Theft Auto 4. Mas quer sejam bons jogos ou não, todos eles – e muitos outros – oferecem actividades que podemos encontrar fora do meio. Certo, o jogo da Criterion permite-nos ter mais “tomates” que senso comum e espatifar veículos a alta velocidade. Mas qualquer um de nós pode conduzir. Qualquer um de nós pode inventar personagens e conversar sobre eles à volta de uma mesa sem ter que jogar a um role-play electrónico. Qualquer um de nós pode jogar uma partida de futebol sem ser através de FIFA.
É por isso que quem critica alguns jogos antigos e certos títulos casuais parece não compreender o que os jogos são. Space Invaders é um videojogo. Um videojogo que não é futebol (como FIFA), que não é sobre conduzir (como Burnout), que não é sobre fantasiar em torno de personagens e conversar com amigos (como World Of Warcraft), que não é sobre música (como Rock Band) e que não tem a pretensão de ser um filme (como Heavy Rain).
É um videojogo que nunca quis ser mais que isso. Porque é que alguns jogadores sentem vergonha disso? Porque é que alguns jogos são considerados menores por serem honestos, e outros são considerados magníficos apenas quando simulam aspectos da realidade ou procuram legitimidade ao imitar outras formas de arte?
Ide para vossas casas. Ide jogar os vossos jogos de condução, de desporto e ver horas de sequências cinematográficas. Depois olhem pela janela. Lá fora alguém vai estar a fazer o mesmo que vocês: miúdos a jogar à bola, pessoas a conduzir pela estrada, alguém a pagar bilhetes para ir ao cinema. O que ninguém vai estar a fazer é controlar uma nave e a enfrentar uma horda imparável de criaturas alienígenas com poucas probabilidades de sobrevivência. E isso é o tipo de experiência que só os videojogos vos podem oferecer.
Seria desonesto afirmar que os videojogos não devem ser mais que isso. Mas não será também desonesto ignorar jogos que celebram o seu legado cultural através das virtudes que sempre os distinguiram de outras formas de expressão? Quando o futuro chegar, que vamos celebrar no nosso passado colectivo: experiências que podíamos encontrar fora dos videojogos ou momento únicos e apenas possíveis neles?
Está nas vossas mãos.
Esta coluna de opinião pode ser encontrada na revista Smash! 10, já nas bancas. Nesta edição, há também uma análise a Torchlight (PC), um especial sobre Dead Space 2 onde levámos o nome do jogo a série demais na paginação, e um artigo sobre Os 30 Melhores Jogos Indie Que Não Podes Perder, que é como quem diz, angústia por deixar para trás tantos outros fora da lista.





